Como precificar um frete sem rodar no prejuízo

Publicado em 04/07/2026 · Última atualização em 04/07/2026

Todo frete aceito sem número na cabeça é um risco calculado às cegas. Compilamos aqui a lógica de precificação correta: por que o custo por km é o piso do seu preço, como adicionar pedágio e tempo parado, onde encaixa a margem e como o piso mínimo legal da ANTT entra na conversa.

Os valores de referência usados neste guia são estimativas para jul/2026, baseadas na metodologia da Resolução ANTT nº 5.867/2020 e nos dados de preço do diesel da ANP. Seu preço real depende do seu custo operacional concreto — calcule antes de citar.

O custo por km é o piso do seu preço — não a margem

O erro mais comum na precificação de frete é confundir custo com preço. São coisas distintas:

  • Custo: o que você gasta para rodar o frete (diesel, pneu, depreciação, seguro, motorista)
  • Preço: o que você cobra pelo frete — deve ser maior que o custo para gerar lucro

Quem precifica “no olho” costuma usar o preço que o mercado aceita como referência e trabalha ao contrário: aceita o que o embarcador oferece e torce para que cubra os custos. Essa lógica é problemática porque ignora que o custo individual varia muito por configuração de caminhão, por rota e por condição de manutenção.

A fórmula correta é na direção oposta:

Preço mínimo do frete = (custo/km × km totais) + pedágio + outros custos diretos da viagem
Preço com margem = preço mínimo × (1 + margem desejada)

Se o resultado for menor que o piso mínimo legal da ANTT, o piso legal passa a ser o preço mínimo praticável — não o seu custo. Se o resultado for maior que o piso, você tem espaço para negociar acima do referencial legal.

Somar pedágio e tempo parado — os dois itens que mais escapam

Pedágio por eixo

O pedágio é calculado por eixo na maioria das praças brasileiras. Um bitrem com 9 eixos paga muito mais do que um toco com 2 eixos na mesma praça. Para estimar o custo de pedágio de uma rota:

  1. Identifique as praças na rota (de ida e de volta, se o retorno for pela mesma estrada)
  2. Verifique o valor por eixo de cada concessionária (os valores são publicados nos sites das concessionárias e no DNIT)
  3. Multiplique: valor por eixo × número de eixos da composição × número de praças

Com tags (free flow e sistemas eletrônicos), o desconto pode chegar a 5% em algumas concessionárias. Considere isso no cálculo se você já tem o dispositivo.

O pedágio não entra no custo por km — ele é um custo fixo da viagem específica e precisa aparecer separado na conta do frete.

Tempo parado na carga e descarga

Tempo parado custa dinheiro. O caminhão continua depreciando, o motorista continua recebendo e os custos fixos continuam correndo. A Resolução ANTT 5.867/2020 reconhece isso ao incluir o coeficiente de carga e descarga (CC) como componente fixo do piso — ele remunera justamente o tempo não rodado.

Para fretes com carga/descarga longa (acima de 3 horas), o cenário operacional muda: a Resolução ANTT 6.076/2026 (vigente desde 20 de janeiro de 2026) distingue o cenário “Alto Desempenho” (carga + descarga em até 3 horas) do cenário padrão, com tabelas diferentes de coeficientes. No seu cálculo, estime o tempo real de espera e aplique um valor-hora ao tempo parado.

Uma referência prática: use o custo fixo mensal ÷ horas trabalhadas no mês para ter um custo por hora de operação. Se você passa 8 horas parado em carga/descarga, esse tempo tem custo real.

Definir a margem — e o que ela precisa cobrir

A margem é o que fica acima do custo operacional. Ela precisa cobrir:

  • Reserva de contingência: pneu que estoura fora de hora, peça que quebra, viagem atrasada sem adiantamento
  • Reserva para troca do veículo: a depreciação entra no custo fixo, mas na prática poucos separam esse dinheiro. A margem pode complementar essa reserva
  • Retorno sobre o capital investido: o caminhão representa um capital imobilizado — o retorno sobre esse investimento faz parte do que você deveria ganhar
  • Risco da operação: carga perigosa, rota de maior risco, carga valiosa sujeita a roubo aumentam o risco e justificam margem maior

Não existe percentual único válido para todas as operações. Como referência:

Tipo de operaçãoMargem mínima razoável
Granel (commodities, alta concorrência)8% – 12%
Carga geral (rota regular)12% – 18%
Refrigerada / especializada15% – 22%
Carga perigosa18% – 25%

Valores de referência para jul/2026. A margem real que você consegue depende da concorrência na rota, do seu relacionamento com o embarcador e do histórico de qualidade do serviço.

O piso mínimo de frete da ANTT é estabelecido pela Lei 13.703/2018 e calculado pela fórmula:

Piso (R$) = (km × CCD) + CC

Onde CCD é o coeficiente de deslocamento (R$/km) e CC é o coeficiente de carga e descarga (R$ fixo), ambos variando por número de eixos carregados e tipo de carga (12 categorias reconhecidas pela Res. 6.076/2026).

A tabela vigente em jul/2026 é a Portaria SUROC nº 4, de 20 de março de 2026, que usa como preço de referência do diesel S-10 o valor de R$ 7,35/litro (ANP, semana de 15 a 21 de março de 2026). A tabela é atualizada automaticamente quando o diesel acumula variação de 5% ou mais em relação ao preço da última portaria.

Para consultar o piso atual: calculadorafrete.antt.gov.br

O piso legal funciona como um piso da conversa com o contratante — nenhum valor abaixo disso é legalmente aceitável. Desde a Medida Provisória nº 1.343/2026 (publicada em 19 de março de 2026 e em análise no Congresso em jul/2026), o sistema da ANTT deve bloquear a emissão do CIOT para fretes abaixo do piso. Confirme a situação atual dessa MP antes de assumir que o bloqueio já está em vigor.

Dois cenários possíveis ao comparar seu preço com o piso:

Seu preço calculado está acima do piso: você está em posição legal e tem o piso como argumento mínimo numa negociação. Se o embarcador pressionar para baixo, o piso é o limite que você pode apontar como referência legal.

Seu preço calculado está abaixo do piso: o piso legal é o preço mínimo praticável. Nesse caso, avalie se a operação faz sentido — o piso foi calculado com uma metodologia de custos que pode não refletir seu custo real se ele estiver muito acima do referencial setorial.

Negociar a partir do número — não da emoção

Com o preço calculado na mão, a conversa com o embarcador ou transportadora muda de caráter. Em vez de “tá caro, você não tem esse valor”, você tem: “o custo operacional dessa viagem é R$ X, mais o pedágio de R$ Y, o que resulta em um preço mínimo de R$ Z para cobrir os custos. Com a margem de serviço, o valor é R$ W.”

Esse posicionamento tem duas vantagens:

  1. Você sabe exatamente até onde pode ceder sem rodar no prejuízo
  2. O embarcador percebe que você tem o número — o que transmite profissionalismo e dificulta a pressão por baixo do custo real

Para fretes recorrentes (mesma rota, mesmo tipo de carga), considere reajuste automático atrelado à variação do diesel. A tabela de piso da ANTT já funciona assim — um gatilho de 5% de variação no diesel S-10 aciona atualização dos coeficientes. Você pode propor a mesma lógica contratualmente.

Quando recusar o frete

Há situações em que a resposta correta é dizer não:

  • O valor oferecido é abaixo do piso mínimo legal: além de ser ilegal para o contratante, é preço que não cobre nem o referencial setorial de custos
  • O valor cobre custos mas não gera margem: rodar no zero a zero não é neutro — é acumulação de desgaste sem reserva para imprevistos
  • A rota tem custo real acima do que o preço oferecido cobre: rota com pedágio alto, frete de retorno vazio certo e diesel regional mais caro podem fazer uma viagem aparentemente lucrativa virar prejuízo na conta final
  • O prazo de pagamento compromete o fluxo de caixa: frete bom no papel, mas com pagamento em 60 dias, pode forçar você a aceitar o próximo frete ruim só para pagar o diesel

Recusar frete que não fecha a conta não é perder oportunidade — é manter a saúde financeira da operação.


Com a lógica de precificação clara, o próximo passo é entender todos os itens que compõem o custo: veja o que compõe o custo de um frete para o checklist completo. Para montar uma estrutura de acompanhamento mensal, veja como montar uma planilha de custos. Use a calculadora em /ferramentas/custo-por-km/ para chegar ao preço mínimo com os seus números reais.

Volte ao hub Custos & frete para ver todos os guias desta série.

Perguntas frequentes

Posso cobrar menos que o piso mínimo da ANTT?

Não. O piso mínimo de frete é o valor mínimo legal, estabelecido pela Lei 13.703/2018 e calculado conforme a Resolução ANTT 5.867/2020. Contratos abaixo desse valor são ilegais e, desde a MP 1.343/2026 (sob análise no Congresso em jul/2026), o sistema da ANTT bloqueia a emissão de CIOT para fretes abaixo do piso. Confirme a situação atual da MP na fonte oficial antes de tomar qualquer decisão.

Como calcular o preço de frete para uma rota com pedágio?

Some o pedágio ao custo total do frete: preço = (custo/km × km totais) + pedágio + margem. O pedágio é cobrado por eixo em cada praça — verifique o valor por eixo da sua composição na concessionária da rodovia e multiplique pelo número de praças na rota de ida (e de volta, se aplicável).

Qual margem de lucro é razoável no frete rodoviário?

Não existe um percentual único — depende do tipo de carga, da concorrência na rota e do risco da operação. O ponto de partida é cobrir 100% do custo operacional. A margem é o que fica acima disso. Margem abaixo de 10% torna a operação vulnerável a qualquer oscilação de custo; acima de 20% é viável em rotas com menor concorrência ou cargas especializadas.

O que acontece se aceitar um frete abaixo do meu custo por km?

A diferença sai do seu bolso, do capital de giro ou da manutenção adiada. A médio prazo, rodar no prejuízo deteriora o caminhão (pela falta de capital para manutenção adequada) e compromete a sustentabilidade da operação. O piso ANTT existe exatamente para evitar isso no mercado como um todo.

Fontes