O que compõe o custo de um frete (todos os itens)

Publicado em 04/07/2026 · Última atualização em 04/07/2026

A maioria dos transportadores sabe que diesel e pedágio entram no custo do frete. O problema é o que fica de fora: ARLA 32, retorno vazio, tempo parado na carga, depreciação do pneu, impostos sobre a receita. Cada item que escapa do cálculo vira prejuízo silencioso.

Compilamos aqui o checklist completo dos componentes de custo de um frete, seguindo a estrutura da metodologia da Resolução ANTT nº 5.867/2020 — dividida em custos fixos (existem independentemente do km rodado) e custos variáveis (dependem do km e do tempo de operação).

Combustível — o maior item, mas não o único variável

O diesel é o componente mais visível do custo variável e em geral representa 45% a 60% do custo total da operação. Para calcular com precisão:

Como calcular o custo de diesel do frete:

Litros consumidos = km totais da viagem ÷ consumo médio (km/l)
Custo diesel = litros × preço pago (R$/l)

O consumo médio varia por configuração de caminhão e por tipo de operação:

  • Toco (4×2): 3,8 a 4,5 km/l (carregado em rota plana)
  • Truck (6×2): 3,2 a 4,0 km/l
  • Bitrem (9 eixos): 2,4 a 3,2 km/l
  • Rodotrem: 2,2 a 3,0 km/l

O preço médio nacional do diesel S-10 ficou em torno de R$ 7,11/litro na semana de 31 de maio a 6 de junho de 2026 (ANP, Ed. 23/2026). O preço varia por região — consulte o Painel de Preços da ANP ou os dados em /dados/preco-diesel-por-regiao/ para a referência regional atualizada.

Retorno vazio — o item mais esquecido do diesel

Se a viagem tem retorno sem carga (frete de mão única), o diesel do retorno é custo real da operação — e precisa ser coberto pelo frete de ida. Ignore isso e você está precificando apenas metade da viagem.

A Resolução ANTT 5.867/2020 não inclui retorno vazio no coeficiente de deslocamento (CCD) — o piso cobre só o trecho carregado. No seu cálculo real, isso precisa estar presente.

ARLA 32 — esquecido por muitos, caro por natureza

O ARLA 32 (Agente Redutor Líquido de Automóvel) é o fluido injetado no sistema SCR (Selective Catalytic Reduction) de motores Euro 5 e Euro 6 para reduzir emissões de óxidos de nitrogênio (NOx). É obrigatório para a operação do motor — rodar sem ARLA suficiente ativa o modo de contingência, que reduz a potência.

Consumo típico: 5% a 7% do volume de diesel. Exemplo:

  • Viagem com 1.000 litros de diesel → 50 a 70 litros de ARLA
  • Se o ARLA custa R$ 4,50/litro, o custo da viagem é de R$ 225 a R$ 315 só em ARLA

Para caminhões mais antigos (Euro 3 e anteriores) sem SCR, o ARLA não é aplicável. Verifique o ano e a especificação do motor do seu veículo.

Pedágio — por eixo, por praça, por rota

O pedágio é calculado por eixo na maioria das praças brasileiras (em algumas, cobra-se por categoria de veículo). Para calcular o custo real:

  1. Mapeie as praças na rota (ida e volta, se o retorno usa o mesmo corredor pedagiado)
  2. Consulte o valor por eixo de cada concessionária (publicado nos sites das concessionárias e nos sistemas de consulta do DNIT)
  3. Multiplique: valor/eixo × número de eixos da composição × número de passagens em cada praça

Um toco (2 eixos) em uma praça que cobra R$ 12,00/eixo paga R$ 24,00. Um bitrem (9 eixos) paga R$ 108,00 na mesma praça — 4,5× mais. O pedágio precisa estar separado no cálculo do frete porque ele é específico da rota, não do km médio.

Dispositivos de tag (free flow, sistemas eletrônicos) podem oferecer desconto de 5% ou mais dependendo da concessionária. Se você já usa, inclua o desconto na conta.

Manutenção e pneus — o que o km acumula

Pneus e recapagem

Pneu tem vida útil em km. O custo por km de pneu é calculado assim:

Custo pneu/km = valor total do conjunto de pneus ÷ vida útil esperada (km)

Um conjunto de 14 pneus de truck (mix novo + recapado) a R$ 42.000 com vida útil de 120.000 km custa R$ 0,35/km — só em pneus. Esse custo existe mesmo que o pneu não tenha furado na viagem: cada km rodado consome vida útil do pneu.

A Resolução ANTT 5.867/2020 reconhece pneus e recapagem como componente variável da metodologia de custos.

Manutenção preventiva

Troca de óleo e filtros, lubrificantes, lavagem, serviços de revisão por intervalo de km: todos esses itens são custos variáveis reais. A forma mais precisa de calcular é dividir a média dos últimos 6 meses de gasto com manutenção pelo km rodado no mesmo período.

Uma referência setorial: a manutenção preventiva de uma truck em bom estado fica entre R$ 0,18 e R$ 0,28/km. Caminhão com manutenção atrasada tem custo de manutenção maior — e risco de parada não planejada (custo corretivo, que é sempre mais caro).

Lubrificantes (óleo de motor, transmissão, diferencial)

Óleo de motor, filtros, graxa e lubrificantes da transmissão e diferencial são custos variáveis por km. Inclua-os na conta de manutenção ou separe para ter mais visibilidade.

Custos fixos — existem independentemente do km rodado

A Resolução ANTT 5.867/2020 organiza os custos fixos em componentes calculados por hora de operação (CCF — coeficiente de custo fixo). Para efeito do seu cálculo mensal, converta em R$/mês:

Financiamento ou depreciação do veículo e do implemento Se financiado: a parcela mensal inteira. Se quitado: a depreciação — perda de valor de mercado ao longo da vida útil econômica do veículo.

Remuneração do capital investido O caminhão representa capital imobilizado. Uma forma de calcular: multiplique o valor de mercado atual do veículo por uma taxa de oportunidade (o que esse dinheiro renderia numa aplicação conservadora). É um custo econômico real, mesmo que não apareça numa NF.

Mão de obra do motorista Salário com encargos sociais (motorista contratado) ou pró-labore (TAC que opera o próprio caminhão). Omitir esse item subestima o custo.

IPVA, CRLV, DPVAT, licenciamento Some os valores anuais e divida por 12.

Seguro do veículo Seguro de casco, RCTR-C (obrigatório para o transportador), RCF-DC (para dano à carga de terceiros). Divida o prêmio anual por 12.

Rastreador e monitoramento A mensalidade do sistema de rastreamento é custo fixo mensal.

Aferição do tacógrafo O cronotacógrafo exige verificação metrológica a cada 24 meses (Resolução CONTRAN nº 938/2022, INMETRO). Divida o valor da última aferição por 24 para o custo mensal proporcional.

Diárias (alimentação e hospedagem) Em viagens longas, refeições e pernoite do motorista são custos reais. A Resolução ANTT 5.867/2020 os inclui como componente do custo fixo (diárias). Se você não controla esse gasto, provavelmente o está absorvendo na margem sem perceber.

Impostos e encargos — dependem da sua situação

Para o transportador autônomo (TAC), os tributos incidem sobre a receita e não são custo operacional stricto sensu — mas precisam estar no preço cobrado pelo frete.

A forma de tributação varia (MEI com CNPJ, autônomo pessoa física com declaração de IR e carnê-leão, empresa optante pelo Simples Nacional etc.) e o percentual tributário também. Não é possível generalizar um número correto sem conhecer a situação específica de cada transportador.

Recomendação: consulte um contador com experiência em transporte de cargas para calcular a carga tributária da sua operação e como ela deve entrar no preço do frete. Este guia não substitui orientação contábil ou fiscal.

O mapa completo — todos os itens numa tabela

ComponenteTipoEntra no custo/km?
DieselVariávelSim
ARLA 32VariávelSim
Pneus e recapagemVariávelSim
Manutenção preventivaVariávelSim
LubrificantesVariávelSim
PedágioCusto da viagemSeparado (não por km)
Financiamento / depreciaçãoFixoVia custo/km
Seguro (casco + RCTR-C + RCF-DC)FixoVia custo/km
IPVA + licenciamentoFixoVia custo/km
RastreadorFixoVia custo/km
Salário / pró-labore do motoristaFixoVia custo/km
Tacógrafo (aferição)FixoVia custo/km
Diárias (alimentação, pernoite)FixoVia custo/km
Impostos sobre receitaTributoNo preço (não no custo/km operacional)
Retorno vazioVariávelAtenção: inclua no custo total do mês

Erros comuns ao montar o custo do frete

Calcular só o diesel e o pedágio Esses dois itens são os mais visíveis, mas representam tipicamente 55% a 65% do custo total. Os outros 35% a 45% — depreciação, seguro, pneu, motorista, ARLA — existem e precisam estar no número.

Não incluir o retorno vazio Quem faz fretes de mão única frequentemente subestima o custo porque calcula o diesel e o pedágio só da ida. O caminhão volta por conta própria — com custo real.

Usar preço médio de diesel desatualizado O diesel varia semanalmente. Use o preço que você pagou no mês, não o preço que você lembrava de há 3 semanas.

Misturar custo com tributo O imposto sobre a receita não é custo operacional — é carga fiscal que sai do preço cobrado. Misturar os dois distorce o cálculo. Calcule o custo operacional por km, calcule o preço mínimo de frete, e em seguida adicione a carga tributária que incide sobre a receita.


Com o mapa completo dos itens de custo, o próximo passo é organizar tudo numa planilha de acompanhamento mensal: veja planilha de custos do caminhoneiro para uma estrutura prática. Para transformar o custo em preço de frete, leia como precificar um frete. Use a calculadora em /ferramentas/custo-por-km/ para inserir os seus números e chegar ao custo por km real da sua operação.

Volte ao hub Custos & frete para ver todos os guias desta série.

Perguntas frequentes

O ARLA 32 entra no custo do frete?

Sim. O ARLA 32 é consumido por motores Euro 5 e Euro 6 no sistema SCR de controle de emissões. O consumo típico é de 5% a 7% do volume de diesel. Como o diesel representa 45% a 60% do custo variável, o ARLA pode representar mais de 3% do custo total da viagem. Ele precisa entrar no cálculo — e muitos motoristas esquecem.

Como calcular o custo do retorno vazio?

O retorno vazio consome diesel, ARLA e km de pneu, além de manter os custos fixos rodando. No cálculo do custo por km carregado, você divide o custo total do mês (incluindo km de retorno vazio) pelos km rodados carregado no mês. Se metade dos km são vazios, o custo por km carregado é o dobro do custo por km total — e o frete de ida precisa cobrir tudo isso.

Pedágio entra no custo por km ou é separado?

O pedágio é um custo da viagem específica, não um custo por km. A forma correta é adicionar o pedágio total da rota (ida e volta, se o retorno usa o mesmo corredor) diretamente ao custo da viagem, fora do cálculo do custo por km. Isso evita distorção ao comparar rotas com pedágios muito diferentes.

Impostos entram no custo do frete para autônomos (TAC)?

Para o transportador autônomo de cargas (TAC), os tributos incidem sobre a receita e precisam ser considerados no preço de venda, não apenas no custo operacional. A forma de tributação (MEI, autônomo pessoa física com carnê-leão, empresa optante pelo Simples) afeta o percentual. Consulte um contador com experiência em transporte de cargas para o cálculo correto da carga tributária da sua situação específica.

Fontes